Reza a lenda que, antigamente, havia um rei que, apesar de tudo que possuía, era muito triste. E este rei tinha um pajem que, apesar de tudo que não possuía, era muito feliz. Este pajem estava sempre rindo e cantarolando, sempre com um sorriso sincero no rosto.
O rei não entendia como ele podia ser tão feliz, então um dia mandou chamá-lo:
- Pajem, qual seu segredo?
- Qual segredo, Alteza?
- Qual o segredo da tua alegria?
- Não existe nenhum segredo, Majestade.
- Não mintas, pajem! Bem sabes que já mandei cortar muitas cabeças por ofensas menores que a tua mentira.
- Mas não estou mentindo. Não guardo nenhum segredo.
- Mas como podes estar sempre feliz?
- Majestade, não tenho razões para estar triste: muito me honra servir a Vossa Alteza, tenho uma esposa e dois filhos lindos, e vivemos na casa que a Corte nos concedeu. Somos vestidos e alimentados… como não estar feliz?
- Estás mentindo! Se não me contar a verdade, mandarei decapitá-lo, pajem! Ninguém pode ser feliz com as razões que me destes.
- Mas Majestade, não há nenhum segredo. Nada estou escondendo.
- Vá embora antes que eu chame os guardas!
O rei não acreditava. Não podia entender como alguém podia ser feliz vivendo em uma casa que não lhe pertencia, vestindo roupas de terceira mão e se alimentando dos restos.
Quando se acalmou, mandou chamar o mais sábio de seus conselheiros e lhe contou a conversa que teve com o pajem.
- Sábio, como ele pode ser feliz?
- Majestade, a verdade é que ele está fora do Círculo dos 99.
- Círculo dos 99?
- Isso mesmo, Alteza.
- E é isso que o faz feliz?
- Não, Majestade. Isso é o que não o faz infeliz.
- Então estar no círculo nos faz infelizes?
- Exato.
- Mas como ele saiu deste tal Círculo?
- Ele nunca entrou.
- Como assim nunca entrou? Que Círculo é este? Não entendo o que quer me dizer…
- A única maneira para Vossa Alteza entender é mostrando pelos fatos, fazendo com que ele entre no Círculo…
- Isso, então o obrigarei a entrar!
- Não, Alteza. Ninguém é obrigado a entrar… mas se lhe dermos oportunidade, entrará por si mesmo…
- Por si mesmo? Mas não notará que isso irá lhe trazer infelicidade?
- Sim, mas mesmo assim entrará. Não poderá evitar. Vossa Alteza está disposta a perder um excelente pajem para compreender a estrutura do Círculo?
O rei concordou.
- Então nesta noite irei buscar-lhe. Deves preparar uma bolsa com 99 moedas de ouro. Exatas 99, nem uma a mais, nem uma a menos.
- Só isto?
- Sim, só isto Majestade. Nos vemos a noite.
E assim foi. O rei recheou a bolsa com exatas 99 moedas de ouro e o sábio passou para buscar-lhe. Foram até os pátios do palácio e se esconderam atrás de uma árvore próxima a casa do pajem. Na bolsa, o sábio atou um papel com a seguinte mensagem: “Este tesouro é teu. É o prêmio por ser um homem bom. Faça bom uso e não conte pra ninguém que encontrou esta bolsa.”
Então deixou a bolsa com o bilhete e as moedas na porta da casa do pajem. Bateu na porta e correu a esconder-se. O rei e o sábio ficaram escondidos apenas observando o que aconteceria.
O pajem então abriu a porta, pegou a bolsa, olhou para os lados e leu o bilhete. Então sacudiu a bolsa e, ao escutar o som das moedas, estremeceu da cabeça aos pés, apertou a sacola contra o peito e entrou rapidamente em casa.
O rei e o sábio aproximaram-se da janela para presenciar a cena. O pajem havia despejado todas as moedas na mesa, deixando somente a vela para iluminar. Parecia não acreditar no que estava vendo. Era uma montanha de dinheiro. Quantia esta que ele nunca imaginara possuir. Ele as pegava e as acariciava. Juntava e esparramava. Começou a fazer pilhas delas.
Pilhas de 10 moedas. E assim as foi contando. Uma, duas, três, quatro…noventa e oito, noventa e nove. Era a última pilha e esta tinha apenas 9 moedas. Todas as outras 9 pilhas estavam com dez, por qual motivo esta estaria com 9?
Seu olhar percorreu a mesa, procurando a moeda faltante. Não encontrou.
Procurou pelo chão, debaixo da cadeira, por toda a casa. Nada encontrou
- Não pode ser. Me roubaram! Me roubaram!
Procurou novamente, mas não encontrou a tal moeda que faltava…
- 99 não é um número completo. 100 é, mas 99 não. Alguém me roubou, ou eu perdi esta última…
Ele já não parecia mais feliz: estava preocupado. Com a testa enrugada, as sombrancelhas franzidas, os olhos pequenos e o olhar perdido…não podia acreditar que faltava uma moeda.
Colocou as moedas novamente na bolsa, jogou o bilhete na lareira e escondeu a bolsa por entre a lenha. Pegou papel e uma pena e sentou-se na mesa a calcular. Quanto tempo teria que economizar para obter a moeda nº 100?
Estava disposto a trabalhar duro para consegui-la. Depois, quem sabe não poderia mais trabalhar…com 100 moedas de ouro ninguém precisa trabalhar. Finalizou as contas. Se trabalhasse e economizasse seu salário e mais algum extra que recebesse, em 8 ou 9 anos conseguiria comprar sua última moeda de ouro. Mas 9 anos é tempo demais. Pensou que se sua esposa procurasse um emprego no vilarejo, e se ele mesmo trabalhasse a noite, conseguiria a moedinha em cerca de 5 anos.
- Mesmo sendo muito tempo, – falava sozinho – é isso que iremos fazer.
Então o rei e o sábio voltaram ao palácio. O pajem havia entrado no círculo dos 99! Durantes os meses seguintes, o pajem seguiu seu plano para conseguir comprar a tal moeda de ouro.
Certa manhã, entrou nos aposentos do rei com passos fortes, bufando, batendo nas portas…
- O que aconteceu, pajem? Há um tempo atrás você ria e cantava, estava sempre feliz…
- Nada aconteceu, Alteza. Faço ou não o meu trabalho? O que você esperava? Que além de pajem sou obrigado a estar sempre de bom humor?
Não se passou muito tempo o rei mandou o pajem embora, não se sentia bem com um pajem mal humorado todos os dias…
Assim também somos nós. Parece que sempre falta algo para que tudo fique completo. Algo sempre está faltando, e por isso não desfrutamos de nossa vida plenamente…esperamos que tudo se complete.
Mas e se percebêssemos que 99 moedas são nossos 100%? Que nada nos falta? Que não se é mais feliz por ter 100 ou 99 moedas?
Por isto, não fique lamentando o que te falta ou o que poderia ter. Valorize tudo o que tens ao teu redor.